segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Profissionalismo como religião


Achei interessante, então coloco aqui: 
Artigo publicado na Veja de 1 de junho 2011 por Claudio de Moura Castro. 

"tudo funciona melhor em uma sociedade em que prevalece o profissionalismo de sua força de trabalho. Mas isso só acontecerá como resultado de muito esforço em lapidar profissionais" 
Logo que me mudei para a França, tive de levar meu carro para consertar. Ao busca-lo perguntei se havia ficado bom. O mecânico não entendeu. Na cabeça dele, se entregou a chave e a conta, nada mais a esclarecer sobre o conserto. Mais tarde, decidi atapetar um quartinho. O tapeceiro propôs uma solução que me pareceu complicada. Pergunte se não poderia simplesmente colar o tapete. O home se empertigou: "O senhor pode colar, mas como profissional, eu não posso fazer isso". Pronunciou a palavra "profissional" com solenidade e demarcou um fosse entre o que permite a prática consagrada e o que lambões e pobre mortais como eu podem perpetrar. 
Acostumamo-nos com a ideia de que se, pagamos mais ou menos, conseguimos algo mais ou menos. Para a excelência, pagamos generosamente. Mas lembremo-nos das milenares corporações de ofício, com suas tradições e rituais. Na Europa - a alhures - aprender um ofício era como uma conversão religiosa. O aprendiz passava a acreditar naquela profissão e nos seus cânones. Padrões de qualidade eram cobrados durante todo o aprendizado. Ao final do ciclo de sete anos, o aprendiz produzia a sua "obra prima" (obra primeira), a fim de evidenciar que atingira os níveis de perfeição exigidos. Em Troyes, na França, há um museu com as melhores peças elaboradas para demonstrar maestria na profissão. Carpinteiros alardeavam o seu virtuosismo pela construção meticulosa das suas caixas de ferramentas. Na Alemanha, sobrevivem algumas corporações de oficio as vestimentas tradicionais. Para carpinteiros, terno de veludo preto, calça boca de sino e chapéu de aba larga. E com orgulho que exibem nas ruas esses trajes. Essa incursão na história das corporações serve para realçar que nem só de mercado vive o mundo atual. Aqueles países com forte tradição de profissionalismo disso se beneficiam vastamente. Nada de fiscalizar para ver se ficou bem feito. O fiscal severo e intransigente está de prontidão dentro do profissional.É pena que os sindicatos, herdeiros da corporações, pouco se ocupem hoje de qualidade e virtuosismo. Se pagarmos com magnanimidade, o verdadeiro profissional executará a obra com perfeição. Se pagarmos miseravelmente, ele a executará com igual perfeição. É assim, ele só sabe fazer bem, pois incorporou a ideologia da perfeição. Não apenas não sabe fazer de qualquer jeito, mas sua felicidade se constrói na busca da excelência. Sociedade sem tradição de profissionalismo precisam de exércitos de tomadores de conta (que terminam por subtrair do que poderia ser pago a um profissional com sua própria fiscalização interior). Nelas, capricho é uma religião com poucos seguidores. Sai benfeito quando alguém espreita. Sai matando quando ninguém esta olhando. 
Existe relação entre o que pagamos e a qualidade obtida. Mas não é só isso. O profissionalismo define padrões de conduta e excelência que não esta à venda. Verniz sem rugas, traz felicidades a quem o aplicou. Juntas não tem gretas, mesmo em locais que não estão à vista. Ou seja, foram feitas para a paz interior do marceneiro e não para o cliente, incapaz de perceber diferenças. A lâmina do formão pode fazer a barba do seu dono. O Lanterneiro fica feliz se ninguém reconhece que o carro não foi batido. Onde entra uma chave de estria, não se usa chave aberta na porca. Alicate nela? Nem pensar. Essa tradição de qualidade nas profissões manuais é caudatária das corporações medievais. Mas sobrevive hoje, em maior ou menor grau, em todo o mundo de trabalho. O cirurgião quer fazer uma sutura perfeita. Para o advogado, há uma beleza indescritível em uma petição bem lavrada - que o cliente jamais notará. Quantas dezenas de vezes tive de retrabalhar os parágrafos dese ensaio? 
Tudo funciona melhor em sociedade em que domina o profissionalismo de sua força de trabalho. Mas isso acontecerá como resultado de muito esforço em lapidar os profissionais. Isso leva tempo e custa dinheiro. É preciso uma combinação harmônica entre aprender o gesto profissional, desenvolver a inteligencia que o orienta e o processo quase litúrgico de transmissão dos valores do oficio. 
Em tempo: amadores não forma profissionais.